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Meu Canto Europa


Agora,
agora que todos os contactos estão feitos,
as linhas dos telefones sintonizadas,
os espaços de morses ensurdecidos,
os mares de barcos violados,
os lábios de risos esfrangalhados,
os filhos incógnitos germinados,
os frutos do solo encarcerados,
os músculos definhados
e o símbolo da escravidão determinado,

Agora,
agora que todos os contactos estão feitos,
com a coreografia do meu sangue coagulada,
o ritmo do meu tambor silencioso,
os fios do meu cabelo embranquecidos,
meu coito denunciado e o esperma esterilizado,
meus filhos de fome engravidados,
minha ânsia e meu querer amordaçados,
minhas estátuas de heróis dinamitadas,
meu grito de paz com chicotes abafado,
meus passos guiados como passos de besta,
e o raciocínio embotado e manietado,

Agora,
agora que me estampaste no
rosto
os primores da tua civilização,
eu te pergunto, Europa,
eu te pergunto:
AGORA?

TOMÁS MEDEIROS

Agora? Mais escravidão
mais armas do que pão
mortos desnecessários, meu irmão
ganância do lucro e podridão.
JAN

O Silêncio das Gentes


Um silêncio e passos d’homens importantes
Ecoam chão de mosaicos
Poc, poc, poc…ecos
E fatos enfatados
E engravatados
D’homens importantes que as gentes!

Um microfone num discurso sábio
Regado de palavras sábias
O silêncio cúmplice dos dias
No silêncio do silêncio
Das gentes cansadas das oratórias
E discursos de hipocrisias!

Uma torrente de palavras rechonchudas
Um desfile de sapiência
Em gravatas abastadas
As minhas gentes caminham mudas
E desesperam paciência
Na dor do alvorecer de madrugadas!

Quem compra os espinhos das gentes
o suor da caminhada?
Passos d’homens arrogantes
Ecoam mosaico d’estrelas
Eu rezo as velas
Das gentes perfiladas nas estradas!

As minhas gentes suam injustiça dos dias
E dor das noites silenciadas Magricelas
No palácio das estrelas
Gravatas abastadas
Festejam hipocrisia de palavras sábias!

A minha noite adormece entristecida
Na cobardia da gente emudecida!
Décio Bettencourt Mateus (Angola)
In "Xé Candongueiro"

E por cada palavra mal gasta
O povo pagou imposto
Até que um dia disse basta
E voltou a sorrir de Novo...!
(JAN)