Avivando Memórias...

Muito se tem especulado com contratações e respectivos emissários envolvidos, nomeadamente, quando toca à participação de Belenenses "genuínos e desinteressados", que apenas desejam o bem do Clube...

E conhecemos histórias de bradar aos céus! Arrepia constatar tanto amor e desinteresse dos que se põem em bicos de pés e batem fortemente no "coração", nalgumas ocasiões de crise.

Pelo meu lado, para além dos diversos miúdos que fiz chegar ao Clube, Nuno Guia, Serralha, Tony Richard, Michell Masqueiro, Fábio, Bruno Silva e tantos outros, tenho também uns pequenos contributos directos, no regresso de Taira e na contratação de Fernando Mendes.

O Taira jogava no Montijo, era o pulmão e o cérebro de uma equipa interessante, o que despertou a natural cobiça entre outros, do "Sarilheiro*" Manuel Fernandes, treinador do Vitória de Setúbal.

Corria a época 88/89 e porque acompanhava a sua evolução e sentia que o Belenenses uma vez mais havia dado um tiro nos próprios pés, falei com o então director do futebol Montijense e alvitrei que convidasse o Belenenses a efectuar um treino no relvado do Montijo, evocando as dificuldades financeiras do CDM, indicando que aproveitaria a visita ilustre para fazer alguma receita através de entradas com donativos voluntários e facultativos, o meu amigo "comprou" a ideia e eu fui portador da carta para o CFB.

Na altura o "nosso" director desportivo era um homem arrogante e desconfiado, lá tinha as suas razões (ainda me estou a lembrar da grande aquisição do Rafael ao boavista), nem chegou a treinar, estava acabado, mas alguém recebeu o guito.

Havia que o ultrapassar e chegar ao John Mortimore, Homem afável, profissional e bonacheirão, que já começava a ser alvo de intrigas...daquele que o deveria defender...

Assim, fui ter com o nosso Carlos Silva e disse-lhe das minhas intenções, fui apelidado de malandro, mas o amor que este nutria ao Clube e sabedor das potencialidades do Taira, fez o resto. Começou por sensibilizar o inglês para as vantagens de sair do Restelo com o grupo, treinando em ambientes descontraídos e que até a própria viagem ia fazer bem aos jogadores e equipa técnica! Dito e feito, quando o grande barcínio recebeu a carta, começou logo por dizer que era impossível, os "grandes belenenses" são sempre difíceis, mas quando eu lhe disse que ou dava a conhecer a mesma ao Mortimore ou eu próprio lhe daria conta do convite, o valentão vacilou e lá teve de engolir uma vez mais a soberba e comigo engoliu por três vezes (duas foi por tentativas de intromissão no futebol juvenil do meu tempo).

Escusado será dizer que eu próprio no hotel Sol Mar, onde falava de vez enquanto com o John, já lhe havia dado dicas sobre jogadores nossos, emprestados de forma aviltante...

E lá foi o Belenenses para o Montijo, nas duas carrinhas da "tieta do agreste", fazendo o treino que o mandão não queria! Jogaram duas equipas distintas, uma em cada parte, o Mortimore apenas manteve o keeper e o Taira deu um baile do outro mundo, Mortimore e Carlos Silva fizeram o resto, e o Taira lá voltou ao nosso seio.

No tocante ao Fernando Mendes eu conhecia o seu descontentamento em Alvalade, apreciava a sua entrega e limitei-me a sugerir ao Carlos Silva uma reunião de aproximação.

Aceite o interesse do Belenenses, aguardei no parque frente à porta 10A o fim de treino, e ainda assisti a um caricato episódio que ia tramando tudo, o Fernando metera o saco na mala do seu carro e dirigiu-se ao tablier para retirar documentos, quando uma distinta lagarta de meia idade apareceu de marcha atrás, batendo-lhe e de imediato começou a gritar que ele é que a tinha embatido, quando o pobre estava parado e devidamente parcado.

Vi o tempo a escassear, publicidade que eu não queria a aproximar-se e embora me risse que nem um perdido, acabei com o filme com o meu testemunho e levei-o no meu carro até casa duns tios meus, em Linda a Velha, onde preparei uma pescada cozida com todos, deixando-os a discutirem os pormenores da transferência, coisa que nunca quis saber.

Feito o acordo, levei-o de novo a Alvalade. Ponto.

Enquanto estes dois grandes jogadores estiveram ao serviço do Clube, nunca os incomodei ou me aproximei para os "holofotes da glória".

Portanto esqueçam as notícias de jornaleiros de meia tigela quanto às incidências destas transferências e respectivos Participantes. Os principais estão vivos, felizmente, podem confirmar.
Depois voltei a privar com ambos sempre que os encontrava ocasionalmente.

Companheiro Carlos Silva, fica bem, obrigado e até um dia destes. Abração.

*Sarilheiro, natural de Sarilhos Grandes ou Pequenos, nada de confusões.