Uma falsa sensação de “segurança”

Analisando os últimos desenvolvimentos na situação do Belenenses, não pode haver qualquer dúvida quanto à legalidade do que se passa. Pudera, estatutos tão mal mas tão mal feitos que podem gerar no limite situações de perfeita impossibilidade de gerir o Clube. É claro que é legal convocar eleições intercalares apenas para o único órgão social que se demitiu: a Direcção. Aliás, tão legal como perfeitamente compreensível que José Manuel Anes (por quem tenho todo o respeito, mesmo fora do âmbito do Belenenses) não esteja disposto a assumir os destinos do Clube mais tempo do que o estritamente necessário.

Na verdade se me puser a pensar sobre o assunto, parece que estou a ouvir Cabral Ferreira em Fevereiro ou Março passados a convidar o Professor, com o argumento de que seriam "só umas horas para o Clube, e duas vezes por ano". Estimo que tenha aceite o cargo nessas condições e mais por amizade, admiração ou solidariedade do que por outra qualquer razão. Repito: estimo.

Haver eleições rapidamente serve que nem uma luva aos que pretendem reassumir o Clube que em Maio de 2006 (sim, em 2006) perderam de vez para Cabral Ferreira. Uma mão lava a outras e as duas a cara e o Prof. José Anes, como o próprio admitirá, não consegue reunir as condições para durante 4 meses levar avante a sua intenção inicial de convocar eleições apenas em Maio e para todos os Órgãos Sociais.

Ora esta (in)feliz coincidência (para o Belenenses) é pasto de relvado verde e bem cortado para quem estava mortinho por regressar e simultaneamente quer que se mantenha tudo em “família” ou – como eu dizia há uns anos atrás – no “clero”. Refiro-me a aqueles que na corrente sequeirista e sita no Conselho-Geral viu a vida andar para trás e perdeu muita influência desde o início do segundo mandato de Cabral Ferreira. Nada que não recuperem agora e em força preparando-se como admito que vinham fazendo. Julgo que consideram agora que marcar as eleições para Março lhes favorece o propósito de não deixar espaço ao aparecimento de soluções que possam de facto constituir alternativa ganhadora nas urnas. Um ano de mandato serve-lhes na perfeição. É só levantar os fantasmas do caos e das qualidades estabilizadoras da “casta”. “Nada de aventureirismos”, “cuidado com os abutres”, chavões repetidos de forma cíclica em 30 e tal anos.

Por tudo isto, o que temos de mais certo é uma uni-lista em 29 de Março. Pois é. É provável. Mas pode ser que apareça quem lhes estrague o esquema, quem sabe?

Mas a verificar-se a uni-lista, estimo que apresentará maioritariamente elementos que já integraram direcções passadas na tentativa de apagar o fogo que eles próprios atearam. Eles próprios quer dizer alguém de dentro da própria “família”. Convém esclarecer que não quero traçar qualquer semelhança no termo “família” aqui aplicado com situações ficcionadas típicas de livros de Mario Puzzo. Quem o ler assim está a ler mal. Na realidade, a casta “clerical” está bem nas tintas para o que sucede ao Belenenses de tão convencida da sua superioridade. O que não pode de maneira nenhuma saber-se é o estado real do Clube e muito menos detalhes cabeludos desta gestão mais recente e muito menos das anteriores. Nem pensar. Segredo dos Deuses e mais nada. Protecção máxima. Quando a coisa está pior, o mais que sai é frases do tipo “fase da asneira” com a falsa assumpção da falibilidade que resulta “sem dúvida” do “extremo amor” ao Belenenses deles (que não o meu Belenenses, pois esse não anda de gatas por ninguém). E se por inépcia ou outra coisa qualquer permitirem a um sucessor que faça asneira da grossa (no fundo atearam o fogo) na volta do correio fazem o que fizeram agora. E aparecem para alguns pseudo-urbanos, como (sempre) “salvadores da pátria”.

Quanto ao consulado de Cabral Ferreira não se me oferece dizer mais nada que não seja: a história repete-se. Ciclicamente o “clero” atira para frente um “seminarista” ainda não investido em “padre”, aparentemente com os mesmos hábitos muito conservadores. Um “filho do sistema”. E ciclicamente perdem a mão num destes de tempos a tempos. Quando acabam por lhe chamar megalómano e cavar as armadilhas.

Em abono da verdade diga-se que desta vez nem foi preciso. Cabral Ferreira cavou-as sozinho e terá sido esse o seu grande erro. Primeiro rodeou-se do “sistema”. Depois, convencido da sua verve heróica e da sua invulnerabilidade (conjunção dos factores Mateus e Jesus) afastou o dito “sistema”. Mas voltou a errar rodeando-se de gente sem capacidade de execução e muito menos de pensar o Belenenses nos seus pelouros. Acertou no Javier que lhe deu imenso jeito apesar de no fundo eu achar que ele nem lhe era preciso.

Acumulou erros atrás de erros, desrespeitou os sócios repetidamente. Desrespeitou os sócios que se importam mais do que o simples embater da bola na trave ou no fundo da baliza. Dos que vão às Assembleias-Gerais e que participam. O que acabaria por ser irónico uma vez que faz doutrina junto de alguns casos psicopáticos ressabiados vira-casacas a apregoar que havia uma oposição minoritária organizada. Qualquer cérebro são e independente vê com facilidade que não há nem nunca houve oposição concertada e que se apreciasse os orçamentos e as contas apresentadas perceberia que eram tão maus como os de direcções antecedentes e que não tentavam sequer romper com o hábito gastador de ter as tais 567 modalidades. A diferença é que nos orçamentos de 2000 a 2005, mais até no último, havia dinheiro ou obras no estádio ou outra coisa qualquer que nunca percebi muito bem. Mas esses economistas de trazer por blogs, nisso, nunca falaram. Se calhar não podiam porque não os deixavam...

Portanto, para mim as grandes questões agora resumem-se assim:

- Haverá condições para o aparecimento de um projecto de fora para dentro, credível, com suporte financeiro imediato e plano de longo prazo?
(Dificilmente)

- Na ausência das condições da questão anterior, haverá quem se atravesse e assuma todo o risco de o fazer sem esse suporte?
(Muito dificilmente, a roçar o impossível)


E se não, na improbabilidade de qualquer das situações anteriores, a questão é: quem será o próximo “seminarista”?

- O novo “seminarista” será cinzentão, cumprirá o seu papel apagado e não-reformador e servirá os propósitos da superior e “santa madre igreja”?

- Ou, pelo contrário, quererá reformar, impor-se, terá planos próprios para o bem do Clube?

- E, se assim for, quanto tempo aguentará?

- E o Belenenses? Quanto tempo aguentará, quantos mais ciclos de “ultra-conservadorismo” seguidos de “ultra-conservadorismo” logo apelidado de “megalomania” aguentará o Belenenses?

- Quanto tempo mais aguentará o Belenenses as 567 modalidades “amadoras” sem expressão em Portugal, que não trazem títulos nem projecção nacional quanto mais internacional ao mesmo tempo que se livra estupidamente daquelas em que podia brilhar?

- Quanto tempo mais aguentará o Belenenses a não reformulação e reorientação para a obtenção de resultados e diversificação de fontes de receitas? Sem naming de estádio, bancadas, sem política de marketing, sem política sustentada e continuada de recuperação de sócios?

Para mim, aguentará pouco, muito pouco tempo. Os sinais são visíveis e uma coisa que não podemos dizer do “clero” é que é virado para a participação popular, nem particularmente sensível ao esvaziamento e à sangria de sócios, quanto mais à paixão que devia fomentar diariamente entre os Belenenses.

E quanto a auditoria, alguém alguma vez ouviu falar que a “santa madre igreja” tenha sido auditada? “Deus” me livre!

Um dia destes escreverei sobre o que seria para mim a solução ideal e necessária para uma situação como a que nos deparamos.

Nuno Gomes

PS: Espero que amanhã, em Braga, saibamos dar o primeiro de 14 pontapés na crise que nos devolvam a uma situação que se coadune com os pergaminhos mas especialmente com a capacidade que temos e que resulta do orçamento brutal de 7,5 M€. Façam-se à vida!