«A podridão» segundo São Rui do Laçarote

Rui Santos, no «Record» de 27/06/2008

A recente aparição de Vale e Azevedo nas fotografias dos jornais e nos ecrãs de televisão constitui mais um golpe duro na justiça portuguesa, se a ela juntarmos o conteúdo dos seus argumentos em contraponto com as condenações já produzidas.
Nem é normal que um cidadão condenado se coloque numa posição provocatória em relação à justiça portuguesa nem é normal o sistema judiciário construir dentro de si próprio as contradições que o põem a jeito para se tornar num alvo fácil das armas de arremesso.
Está na moda: fugir da justiça e dos efeitos da crise económica que assola o País. Está-se bem melhor em Londres ou em Bruxelas.
No que diz respeito ao futebol, continuo a perceber uma coisa: por que razão não se vai mais a fundo no negócio das transferências de jogadores? Não é um trabalho que caiba apenas às polícias e ao Ministério Público. É preciso que haja vontade política. E, nesse contexto, embora em planos diferentes, vai acontecer à Casa das Transferências (ou dos Contratos) o mesmo que aconteceu à Casa das Selecções?
Não basta apregoar o combate à corrupção. Seria importante passar das palavras aos actos e este Governo, nessa matéria, também vem alinhando muito com as “bandeiras às janelas”. Talvez porque lhe dê jeito. Para combater a corrupção, no terreno, é necessário começar porventura pelo aparelho do Estado. E esse é um problema acrescido, para além de dar um trabalhão. E, em Portugal, tudo o que dá trabalho fica para segundo plano.
Se a justiça portuguesa necessita de ser ajudada para sair do limbo, a justiça desportiva é a sua bastarda e parece querer dispensar a ajuda seja de quem for. Porque age como uma corporação em defesa de interesses clubísticos e de quem os apoiar. O que representa, hoje, para o Apito Dourado e para o Apito Final, o Conselho de Justiça da FPF é uma vergonha. Desde logo, a significação da sua presidência.
Um vereador da Câmara de Gondomar acha que, em sede de Apito Final e estando o Boavista em causa (é bom lembrar que, neste processo, não estão em causa escutas telefónicas mas testemunhos documentados), está em condições de emitir opinião com decisão.
O Conselho de Justiça da FPF é bem a imagem do futebol português.

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Confesso que ainda não tinha concluído se a oleosa figura é do Benfica ou do Sporting, embora depois desta “escandalização” toda com o Vale e Azevedo e o facto deste desde Londres ter afirmado que o Benfica é que lhe deve 7,5 M€ sem que a direcção desse clube o tenha desmentido, me faça inclinar para o pavão afinal tenha penas em vez de pêlos de juba.

Embora concorde com o ataque à corrupção (para mim seria toda a corrupção e não apenas a geograficamente selectiva), não me esqueço que este “pintas” se calou e deixou jogar o Meyong já sabendo o que daí adviria. É certo que podia ter falado mais tarde e agora estaríamos na Vitalis a carpir mágoas, mas a verdade é que gente séria que põe a verdade desportiva à frente, gente rectilínea, falaria antes do acontecimento mesmo que não gostasse de nós. Chama-se rectidão e ter valores morais. Aliás, o seu dia estaria feito ao entalar a FPF.

Mas não. Ele alimenta-se desta podridão de que agora vem reclamar e deu um bom contributo ao aumento ou pelo menos à perpetuação desta mesma podridão.

Viva o «sistema»!
O «sistema», de Depireux (em 1985) e levado a bandeira de presidente lagarto mais tarde, existe e é composto pelos 3 estarolas (e não uma circunscrição a norte do Mondego como alguns querem fazer crer), os beneficiários da máfia (alguns clubes à rotação e os jornalistas em grande medida) e os corrompidos. E não é invenção, basta ver que está todos os dias nas bancas.

O «Apito Dourado» teve o seu (primeiro) epílogo na semana passada e como se esperava "no pasa nada". F.C. Porto safo antes, Valentão com ligeiríssima amolgadela, prontamente resolvida e com promessas de recurso e regresso. «Apito Encarnado» na gaveta (processos foram suspensos para que não prescrevessem e aguardam melhores dias para regressar à ribalta, embora duvide que tenham fim diferente.

Deve ser isto que o Michel Platini queria dizer com acabar com a currupção. Olhando para os amigos portugueses dele, que se movimentam ‘cambando’ (como se diz na Madeira) no meio uefeiro, está mesmo a ver-se a verdade desportiva de que é ele adepto.

Valerá a pena repetir isto até à exaustão?
Valerá a pena fazê-lo se – como se verifica - dentro dos próprios adeptos belenenses há quem constate isto (não há como não ver) e continue a adorar secretamente a pompa dos “grandes”, sendo atraídos para isso, sonhando com emprestados do «sistema» enquanto dizem cobras e lagartos dos mesmos clubes? Revelando uma adoração contraditória com a azia que às vezes parecem ter para com eles.

Coerência para que te quero… E assim vamos, assistindo a tudo a ir para o ralo associativo sem que ninguém (com responsabilidade, bem entendido) se digne a mexer uma palha.