GOD ON MY SIDE, WATCHING YOU...

Que ninguém se assuste ou confunda, eu nunca intrometi religiosidades em desporto; pedir que uns ganhem (e, logicamente, outros percam) a qualquer "poder superior", repugna completamente o meu conceito das coisas, nomeadamente o de justiça universal, compassiva, talvez, mas cega, no sentido de impessoal; e, no meu hilozoísmo monista mas politeísta, mais facilmente diria "deuses" do que "Deus"...

O título nada tem a ver com tudo isto.

Alude apenas a que, quando era jovem e tinha um carro novo, que deslizava velozmente, numas semanas de uma certa época de uns dos ressurgimentos do Belenenses, uma cassete, provavelmente oferecida, passava no rádio enquanto rodava. Nada de especial, tenha a vaga sensação de que era uma banda canadiana, e só tenho a memória de um refrão... "God on my side, watching you".

E lembro-me de ouvir isto, ligando-o a um jogo com o Benfica, num Restelo cheio como nunca mais o vi. Lutávamos pelo regresso à Europa, tinhamos sido "sacaneados" vezes sem conta pelo sistema (como, primeiro que todos, o chamou o nosso treinador de então, Henry Depireux). Um corte azarado de Murça, tolhido pela trajectória do vento, oferecera um golo imerecido ao Benfica. Porfiava o Belenenses, tinhamos 5 avançados, faltavam 12 minutos para o fim... bolas!, não podíamos perder, mas como superar a lendária sorte benfiquista? E é então que um brasileiro, Guina, desfere forte remate para a baliza do lado do Tejo, o Guarda-Redes deles sacode para a frente, Mapuata surge como um tufão, nem agarrando-lhe a camisola o param, e manda um estoiro formidável lá para dentro! "God on my side, watching you!", era o golo da raiva, da justiça, do pontapé no destino, que me fez dar um salto formidável, que hoje talvez já não fosse capaz de dar.

E, sem essa música, o Belenenses tem-me preso a outros momentos de plenitude quase mística, "God on our side", a mão firme do Destino que faz estremecer e vibrar, que nos sela com a marca única de sermos beléns!

Por essa altura, no mesmo momento global, no Restelo também cheio, ganhávamos ao Sporting por 1-0 mas não imaginávamos o que aí vinha. Mladenov rodopia, flecte da direita para o meio, finta um, finta dois, e dispara formidável remate a 30 metros, para o fundo da baliza, um golo inesquecível, magistral. Abriu-se o Restelo em sons e cores, que grande golo, que grande alegria! "Estamos em primeiro?" - perguntava alguém atrás de mim. Sim, estamos em primeiro! "God on my side, watching you". Era o regresso das vitórias sobre um dos 3 rivais de ontem, de hoje e de sempre, era o regresso ao topo, parecia o fim dos pesadelos...

Sim anos antes, o impensável sucedera: o drama, a tristeza, o sentimento de impotência, as lágrimas, a cruz vergada, Belém pela 1ª vez a descer de divisão. Mas lá veio o retorno. Setembro de 1984 - "o regresso das caravelas", os rapazes com a camisola azul e a Cruz de Cristo voltam a assomar no nosso estádio para um jogo da 1ª divisão, e o céu torvou-se-nos em lágrimas de felicidade... "God on my side, watching you".

Regressos, começar de novo, lutar contra o infortúnio, a saga infindavelmente repetida do Belenenses. Como naquela época de Meirim, "vou fazer o Belenenses voltar a ser campeão". Era a minha 1ª vez no Restelo, Sábado à noite, Belenenses - Tirsense, o estádio cheio, a gente apertada, o estrépito da multidão, da nação belenense, a gente que desfilava na pista com cartazes, todos os signos de um grande clube..."God on my side, watching you"...

E aquele campeonato de Andebol, o golo decisivo, era o ano de 1974, contra o Sporting, a bola rematada em suspensão, da lateral esquerda, 14-13, um triunfo num duelo de intensa rivalidade, num pavilhão que o tempo levou para o desuso...ou aqueles 4-2 sobre o Benfica, com 60 mil pessoas no Restelo, o delírio final, estamos em 1º, as redes/vedações que cedem, os nossos jogadores levados em ombros... "God on my side, watching you...".

O caminho para a final de 89, o jogo que decide a presença no Estádio Nacional. Estamos a perder 1-0 com o o Sporting no Restelo, vamos a meio da 2ª parte, a bola não entra, é-nos um golo anulado, são vagas sucessivas de azul, até que o dique se quebra, é o 1-1, que alívio!, é o 2-1, os delírio, as lágrimas!, é o 3-1, a festa, a senhora ao meu lado que "queria tanto que o marido [já morto] visse isto", os velhos belenenses exultantes... "God on My side, watching you..."

E aquela tarde inesquecível, no Jamor, o Chico Faria vai fazer golo, tenho a certeza que vai - "God on my side, watching you" - , é mesmo, é a explosão de todo um povo azul... Caminhava o jogo para o fim mas sofremos o empate, parece o descalabro quando Zé Mário é expulso, lembvo-me de ele beijar o símbolo na camsola, e Juanico tem aquele pontapé, portentoso, os lampiões em silêncio, os Belenenses em delírio, eu sentido-me irreal, "God on my side"... será desta? Sim, é mesmo desta - inacreditável, mas é - , acabou-se o fatalismo?! Termina o jogo, é a festa, a consagração, ponho-me em cima de um dos muros, agitando um pano azul, eufórico, depois do abraço ao meu pai, que nunca vira tão nervoso num jogo. (...) O meu pai, de quem sou tão diferente em tantas coisas que penso e sinto, mas de quem aprendi o belenensismo, e a honra, e a dignidade de perrmanecer de pé mesmo quando tudo desaba; a grandeza da sinplicidade, a fidelidade aos ideais, o antes quebrar que torcer (mesmo que a vida por vezes nos obriga a torcer), o "emprestado, não obrigado" - é nosso, é nosso -, o "por eles já serem tantos é que temos que continuar a ser dos que são menos"...

E aquele sofrimento infindável do último campeonato de Andebol, sempre o Benfica pela frente a querer matar-nos o sonho...48 segundos, enviamos um livre de 7 metros à trave, que garantiria o título ...e agora não podemos sofrer um golo, ou perdemos o campeonato. Mas a 10 segundos do fim, a bola é recuperada para o Beto Oliveira, ele tem o título nas mãos, "God on my side, watching you", campeões, nós somos campeões...

E a meia final da Taça, ainda há pouco mais de um ano. Os que restámos, desta decadência belenense, parámos de repente de gritar, ... "God on my side, watching you", Zé Pedro tem a superioridade nos olhos e marca mesmo o golo de penalty, é o delírio, cachos de beléns, num abraço imenso, lágrimas e lágrimas como nunca vi, como nenhum outro clube tem - 18 anos depois, uma vida, que une 3 gerações, voltamos ao Jamor...

E, enfim o empate na Luz, na finsalíssima do Futsal, o safanão no fatalismo, o orgulho de estarmos vivos, a provar o gosto da paixão, do desafio da rebeldia, quem sabe da glória..."God on my side watching you".

E outros, vários outros momentos desdes vivi no Belenenses. Eles valem quase uma eternidade! É o meu Belemenses. Tantas vezes triste. Tantas vezes desesperante. Tantas vezes suicida. Tantas vezes de doidos. Mas, é o meu Belenenses, irresistivelmente. Pelo Belenenses, sempre! Mas por um Belenenses a sério, o que vive nestes instantes sublimes!