Imutável e impavidamente... nas tintas

O que agora vos apresento é o essencial de um artigo que publiquei no «Belenenses Sempre» em 21 de Fevereiro de 2006, portanto pré-Mateus, pré-descida do Estrela da Amadora (que por duas vezes nos safaram da descida confirmada) e também pré-Final da Taça de 2006/07 (que foi uma oportunidade perdida de capitalizar um cada vez mais raro entusiasmo colectivo).

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A sua actualidade é evidente, por tudo o que não foi feito, nem quisemos saber, nem nos preocupámos com isto (enquanto Clube, evidentemente). Em 4 anos, com os objectivos certos, com a organização certa, podíamos muito bem estar longe da (mesma) triste realidade. Mas não estamos. Não nos movemos um milímetro. Não há vontade de quem dirige, não há interesse de quem assiste.

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(...) Dou diariamente comigo a pensar se os actuais responsáveis do meu Clube entenderão, da mesma maneira que eu, como é essencial, vital, assegurar a sobrevivência do Clube, assegurar a permanência no principal escalão? Obviamente que sim, mas (e há sempre um "mas") quando dou comigo a ler frases como "Roma e Pavia não se fizeram num dia" [acrescento o "estrutural] e outras do género que me escuso a revelar ou comentar fico desconcertado. Esquecem-se os utilizadores regulares da expressão para uso desculpatório que apesar disso Roma ardeu num dia e pouco importa quem lho pegou. Queimou, morreu, "era uma vez...".
O Belenenses está vazio de sócios, está vazio de participação popular. Está "às moscas". Literalmente. Esta deveria ser a PRIORIDADE Nº1. Porém, pelo que temos visto, certamente não o é. Caso preocupasse, na medida da gravidade e consequência do problema, ter-se-ia lançado, neste último ano, uma campanha séria e competente de recuperação de sócios e adeptos, apenas com paralelo na lançada em 1967/69 e que nos fez duplicar o número de sócios (com menos meios financeiros e técnicos).
(...) Assisti a algo de aterrador ao fazer quatro capítulos de uma saga, sempre igual, de “O Fim da Ilusão”. Fica aí para registo e para a posteridade, até me arrepia só de ver. Um adepto tem o direito de se deixar iludir. Quem conhece os números tem o dever do contrário. Face ao que vi e continuo a ver só não digo que o Clube DE FUTEBOL os Belenenses está morto apenas por respeito aos 1000 a 2000 persistentes, dos quais faço (ainda) parte.
(...)
Pensemos um pouco nas consequências de uma queda na 2ª divisão:
- Vai potenciar o crescimento do número de sócios?
- Vai potenciar uma melhor propagação de imagem e aumentar a projecção mediática (e não só) do Clube?

Se calhar vai... nalgumas “cabeças”.
(...)
A verdade é que, para acordar o Belenenses, é necessário um choque de tal energia que, hoje, sincera e tristemente, não creio que apareça (ou haja) alguém com capacidade para o administrar. Alguém com capacidade de mobilizar de entusiasmar e de fazer chegar a mensagem ao sócio ou ex-sócio mais desgostado ou convencido da inevitabilidade da morte do Clube.

Desabafo
Na ausência de tal capacidade, o Belenenses tornou-se, pela patologia apresentada, um bonito vegetal, embora extremamente decorativo para outros, é certo.
De cara lavada, em coma profundo, bem lavadinho e devidamente algaliado.
Cujos esmagadora maioria de familiares, por desgosto e antecipação de morte, deixaram de visitar. Pré-cadáver que aguarda apenas, na ala dos comatosos profundos, no hospital, a confirmação oficial da morte, "comme il faut".
A continuar assim, sem que nada de concreto e continuado seja feito, como qualquer boa Família, a belenense reunir-se-à no funeral para se poder despedir daquele que foi, em tempos, o mais pioneiro e vanguardista Clube português de desportos.
Se continuarmos sem fazer nada, unir-se-à, a breve trecho, o ex-agonizante e já defunto Belenenses ao seu criador, Artur José Pereira, já resignado ao seu madrugador reencontro, juntando-se também à companhia de todos aqueles que, figuras maiores de uma extraordinária gesta, já partiram desta vida terrena, pela lei natural da vida.
Cumprir-se-á assim um ciclo de vida que poderia ter sido mais longo e glorioso, acima de tudo mais digno, se poupado às vergonhas da decadência das últimas décadas, houvesse para isso dirigentes à altura e com visão que honrasse esses pergaminhos como inicialmente.

Oxalá...
Oxalá ainda fosse possível...
Oxalá houvesse alguém...
Oxalá houvesse Belenenses para deixar aos meus filhos...

Acreditar face a tanta indolência seria um acto de fé. Seria acreditar em algo que não se vê, já se ouviu que seria assim, mas não há provas nem leves indícios da possibilidade de ser ou acontecer. Nem já rumores há dessa vontade de “Crescer”, bandeira agitada nas últimas eleições (embora sem grande convicção, diga-se).
Actos de fé é algo para o qual nunca estive fadado. Acredito até às últimas consequências na intervenção humana, desde que capaz e competente.
Além disso, se enquanto era tempo de aplicar medicina preventiva não o fizemos (as direcções sucessivas têm acesso a informação em "tempo-quase-real"), se já com a patologia latente e em sofrimento há anos continuamos a não acudir negando a medicina curativa, que dizer?
Somos, por analogia, uma daquelas seitas que impede a intervenção médica em auxílio dos seus? Enquanto assiste impavidamente à degradação e morte do paciente por falta de tratamento?(...)