Pior é Possível...



O alucinante fim-de-semana de rumores e desmentidos sobre uma intervenção na Irlanda é a face visível do clima de conflito e desorientação em que vive a Europa.

Portugal tem de se preparar para um ano de 2011 muito pior do que se adivinha já neste momento. Como se a situação já não estivesse suficientemente difícil, alemães e franceses lançaram mais achas para a fogueira financeira com declarações para consumo eleitoral sobre as futuras regras de ajuda financeira aos países em dificuldades financeiras.

Se a Irlanda for intervencionada, a que se deve depois seguir Portugal, os contribuintes alemães bem podem agradecer à chanceler Angela Merkel. Foi Merkel e o seu ministro das Finanças, a par de Nicolas Sarkozy e a sua ministra das Finanças, que atearem o fogo financeiro dos últimos quinze dias.

Na tentativa de agradarem aos eleitores, Merkel e Sarkozy criaram o risco de esgotar o Fundo Europeu de Estabilização Financeira, tomando muito mal conta do dinheiro dos seus contribuintes.

Uma intervenção na Irlanda cria um sério risco de efeito dominó sobre Portugal e a Espanha, para não falar da Itália. Depois do irlandeses caírem, os investidores quererão ter a certeza que não perdem dinheiro com a dívida pública portuguesa, espanhola e italiana, os países de mais elevado risco de colapso financeiro.

Alemães e franceses foram indiferentes aos sucessivos avisos do BCE sobre os perigos de falar em perdas dos investidores quando se vive em tempestade financeira. Assim como ignoraram que os mecanismos de ajuda financeira, como é o caso do FMI, não consagram previamente reescalonamentos de dívida ou perdas financeiras.

A pressão, sob anonimato, que alguns países europeus fizeram este fim-de-semana à Irlanda é um gravíssimo erro financeiro e político.

Financeiramente, a União deita pela janela a força que ganhou junto dos mercados financeiros quando criou o Fundo de Estabilização em Maio. Com a ajuda aos irlandeses, e sobretudo por via da actuação política a que estamos a assistir, os investidores terão a certeza que se vai seguir Portugal. E a seguir sabem que não haverá dinheiro para ajudar a Espanha, tendo tudo a ganhar com uma onda especulativa contra a dívida espanhola.

Politicamente, todo o processo de pressão sobre a Irlanda durante este fim-de-semana, alimenta a desconfiança entre os países da Zona Euro em nada contribuindo para a cooperação actualmente fundamental para ultrapassar as ameaças que pairam sobre a União Monetária.

Se a intervenção na Irlanda gerar o efeito dominó que se receia, os custos para o euro podem ser politicamente insustentáveis. Merkel, com a sua actuação, pode acabar por atingir o objectivo oposto ao desejado. Em vez de agradar aos seus eleitores, pode ter de lhes pedir mais dinheiro para salvar o euro da crise de dívida e ficar cada vez com menos margem para defender um euro cada vez mais alvo da desconfiança dos alemães.

Portugal tem de se preparar para o pior. Se a Irlanda capitular, Portugal cairá praticamente a seguir. Terá inevitavelmente de pedir ajuda ao Fundo europeu e a FMI. O Estado irlandês só precisa de pedir financiamento no mercado em meados do próximo ano. O Estado português tem de ter acesso a crédito logo em Janeiro.

No quadro de desorientação em que se encontram as lideranças europeias, pior do que Portugal pedir ajuda financeira também é possível. Se a Espanha não resistir e se a Alemanha e a França insistirem nos discursos eleitoralistas fáceis, o euro viverá o pior dos pesadelos. E com ele, todos nós.
(Helena Garrido, Jornal de Negócios de 16 de Novembro de 2010)

PS : Começamos todos a estar fartos destas melgas alemães e francesas, como estou de visita ao Norte, vou começar a desbaratar os estupores, ao almoço vou comer não uma, mas duas francesas, melhor dizendo, francesinhas, bem mais tenrinhas e saborosas! Quanto à flácida angela, mandar-lhe-ei uma alheira de mirandela com muita pimenta, como diz o meu amigo José Carlos Saraiva: "...pimenta no tutu dos meus adversários, é gelado...";