Respigos da entrevista inserta no Jornal «A Bola», concedida em Outubro de 1995, pelo Consócio Pedro Queirós Pereira, vulgo P.Q.P., ao conceituado jornalista, Nuno Perestrelo)
P - Sendo empresário e sócio do Belenenses como encara a possível criação de uma sociedade desportiva?
R – Começo por pensar que os clubes viveram com fortes apoios das Câmaras Municipais, através de terrenos cedidos, o que não é mais que o repasse para os clubes com milhões de contos em património. Ao falar-se em clube empresa, há que questionar se as CM sentirão à vontade para apoiar …empresas! É que se isso não suceder, onde é que essas empresas vão render milhões de contos? Será que os clubes se transformarão em empresas tão rentáveis que possam prescindir dos milhares que as câmaras dão? Tenho fortíssimas dúvidas.
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P – No caso concreto do Belenenses, há um projecto nesse sentido, que contempla a construção de um hotel no topo norte do estádio, de ginásios de musculação e outras infra - estruturas rentabilizáveis…
R – É uma fantasia! Onde está o dinheiro para construir o hotel? E, depois de o fazer, será que vai ser rentável? E as salas de musculação e ginásios serão suficientes para substituir os apoios camarários?
P – O presidente mecenas também já é uma figura gasta?
R – Sim. Os clubes não vão viver de presidentes mecenas. Não há empresários burros e ninguém suporta fazer mecenato com centenas de milhar de contos. Só a título de exemplo, nos últimos anos quem meteu dinheiro no Benfica ou Sporting? Aliás, uma das razões porque não cogito ser presidente do Belenenses é porque as pessoas estão mais à espera do meu dinheiro do que da minha administração. Não penso que fosse a pessoa indicada, pois tenho uma filosofia particularmente dura.
P – Qual é?
R – Acho que, durante décadas, o Belenenses pode ser considerado um dos quatro grandes clubes portugueses. Infelizmente, para quem tem os pés assentes no chão, essa realidade do passado não é sustentável no futuro, pois os orçamentos das equipas de futebol são de milhões de contos. ….. Não é o caso do Belenenses, que representa um bairro. Se até hoje se consegue manter na I Divisão com orçamentos tão elevados, deve-se única e exclusivamente a um factor importantíssimo que é o bingo. Só que toda a gente sabe que o bingo não é eterno!
P – Das suas palavras quase se depreende que não acredita existirem muitas possibilidades de inverter essa tendência?
R – Nada disso. Existe uma forma de invertê-la, mas dificilmente será aceita pela massa associativa. Era reduzir drasticamente os orçamentos das equipas de futebol e fazer investimento com o dinheiro do bingo, procurando rentabilizá-lo. Era uma questão de nesse dinheiro e capitalizar pelo menos metade, reduzindo o desembolso com a loucura de comprar jogadores. É evidente que eu gosto que o clube esteja na I Divisão, mas enquanto o bingo durar devíamos rentabilizá-lo, mas é difícil acreditar que a massa associativa aceite.
P – Por implicar uma travessia no deserto?
R – Não é obrigatório. Se utilizasse apenas uma parte das receitas do bingo em actividades futebolísticas continuaria a representar duas ou três centenas de milhar de contos. Com habilidade e sorte, o clube poderia manter uma equipa com capacidade para continuar na I Divisão. Todavia, se isso não acontecesse não poderia ser encarado como uma fatalidade, mas sim como uma etapa de um plano a 10, 15 ou 20 anos, que visa a eternização do clube com orçamentos elevados que permitissem, então sim, um nível de I Divisão. Em Portugal temos ambições de disputar taças europeias com os maiores clubes dos países mais ricos da Europa. Repare que a partir do momento em que os nossos clubes se transformarem em empresas, passam a ter a dimensão das empresas portuguesas e deixam de poder competir com os orçamentos das grandes multinacionais que estão por detrás dos colossos do futebol europeu, como seja, por exemplo a Fiat com a Juventus ou a Phillips com o PSV. Caminhamos alegremente para o precipício. Não é possível haver clubes com dívidas de milhões de contos. Um dia isto vai ter de parar.
P – Porque motivo não tenta colocar em prática as suas ideias sobre o que deve ser o Belenenses nos próximos anos?
R – No dia em que alguém defendesse o que eu digo e se candidatasse, não era eleito. A massa associativa não permite. Nem vale a pena pensar nisso. Se amanhã sentisse que havia uma corrente de opinião forte, poderia sentir-me tentado a apoiá-la, ainda que na fase actual da minha vida tivesse de fazê-lo indirectamente.
P – Estaria disposto a liderar esse processo?
R – Tenho 46 anos e metas empresariais a atingir. Tenho obrigações para com os meus accionistas, sociedades que lidero e respectivos trabalhadores e não poderia dispensa tempo para colaborar numa tarefa dessas. Por outro lado, acho – e tenho pena de o dizer – que em termos de futebol em Portugal, há tanta coisa errada…. Tanta indignidade, que não sinto o mínimo de apetite para me envolver nisso.
P – Mas poderia apoiar alguém da sua confiança?
R – Um projecto destes não tem o apoio dos sócios. Se houvesse apoio, era muito diferente. Gostaria que aparecesse alguém com disponibilidade de tempo para por esse projecto em marcha, mas, infelizmente, acho que só se o nosso clube bater mais no fundo é que as pessoas compreendem… Só quando o Belenenses estiver outra vez na II Divisão é que as pessoas assumem isso… O Belenenses precisa de um tratamento de choque.
P – Ou seja, das candidaturas que, até agora, se perfilaram para o próximo acto eleitoral, não pensa apoiar ninguém?
R – Acho que tudo quanto seja muito diferente do programa que defendo, condena o Belenenses, a prazo, ao estatuto de clube de bairro, eventualmente sem condições para disputar sequer a divisão de Honra. Em tempos o Oriental e o Caldas também estiveram na I Divisão e, agora, não têm condições para pensar nisso, por falta de orçamento. Os sócios querem resultados amanhã e, possivelmente terão. Só que, depois, também terão a falência do Clube, quando se acabar o bingo. Se aparecer alguém com estas ideias, poderei apoiar, pois era preciso haver uma direcção que tivesse visão. Era, também, fundamental que os sócios tivessem uma vontade enorme de mudar radicalmente o clube, em vez de mudar de direcção de 15 em 15 dias...
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PS 1: Decorrido quase 14 anos, as questões nucleares desta entrevista mantêm-se actuais, apesar da "indústria futebol" ter atingido uma capitação de cerca de +/- 6% do pib nacional;
PS 2: Como todos sabemos, o bingo é para ser aplicado na formação, promoção do desporto amador e da formação bem como em infra - estruturas;
PS 3: Pedro Queirós Pereira, defende que o Belenenses deve ter apenas futebol, e que os profissionais deveriam trabalhar tanto ou mais que os varredores do lixo, ...;
PS 4: O despesismo nos clubes, sendo preocupante, pode ser tolerado, se houver gestão equilibrada e permanente disponibilidade de tesouraria. Nas sads, sabendo-se que os administradores são responsáveis e solidários pelo buraco, o caso piará mais fino, "até ocorrerem as primeiras prisões";
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Demasiado realista para candidato
Publicado por Anônimo @ 2.6.09 Etiquetas: Belém Livre


