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O Palhaço Rico e o Pobre Palhaço Político


Mou, mestre no sacudir a pressão, mandou uma farpa a Pellegrini do Malága, arengando qualquer coisa do género: "...se for despedido do Madrid não vou treinar o Málaga mas sim um grande de Itália ou Inglaterra...".

Manuel Pellegrini aguentou-se por enquanto à bernarda, mas um palerma de nome Salvador Pendón, chefe do governo Malagueño, mais conhecido pelas asneiras e gafes políticas que por obra realizada, sentiu-se ofendido e retrucou: "... Mourinho é um autêntico palhaço, arrogante e mal-educado .... ao dizer que não viria para Malaga e da forma como o afirmou, não só ofende Pellegrini, mas também toda a região Malagueña e peñas ...".

Espere-se pela resposta de Mou para rirmos mais um pouco, enquanto o Teixeirinha não se lembrar de taxar e com retroactividade, o pobre distender do músculo chamado, coração.

Atenção que este Pendó é artista, e, político! Aí vai uma pequena amostra:

- tem experiência em gestão com dinheiros do pagode;
- reafirma vezes sem conta que em Málaga não se passa fome;
- gasta 350 000 mil euros em prospectos de propaganda pessoal;
- cobra antecipados 600 000 mil euros por urbanizações em solos não urbanizáveis;
- anuncia a construção de dezenas de campos de golfe que nunca construiu;
- gasta milhões de euros em croquetes, festanças e sevilhanas em nome da cidade;
- anuncia para a imprensa que vai a Roma oferecer 1 700 botelhitas de azeite e presuntos;
- minutos depois manda não publicar o comunicado;
- mas levou mesmo séquito a ver "o Silva", o portuga que ofusca o Papa;
- tem discussões com a imprensa escrita, on line e na blogosfera, usando vários nikes;
- realiza centenas de festas flamengas e anda à estalada com passantes;
- arranca brasão franquista de edifício sec.XVIII s/avisar vereador e coloca placa de cimento;
- urbaniza terrenos agrícolas e os amigos colocam-nos à venda por + de 83M€;
- desautoriza ordem do tribunal numa demolição de familiares de amigo alcaide;
- correm processos judiciais por desrespeito a normas e leis da Província;
- tem amigos que beneficiaram das suas decisões condenados a 4 anos por tráfico e usura;
- é conhecido por o gil & gil pior que pechibeque;

Já fez constar que abandonará a política e quer dedicar-se a outras actividades culturais!?
Cuidem-se! Tem invejável CV para governar uma próxima junta ou comissão administrativa ...

Apostilha: Corre com insistência em Madrid que Valdano farto de perder guerras com MOU, apagou o seu número de telemóvel da agenda, depois de o ter "amado tanto". Há até um grupo de peñas que já idealizaram um dueto para o fado malandro com o português, a deixa de Valdano é deveras magoada:

...se que te amé, sin que me duela prenda,
para evitar la voz indiferente
he borrado tu móvil de mi agenda....

... desconhece-se a métrica destinada ao ainda Madrid uno;

"Lusíadas" do Século XXI


I

As sarnas de barões todos inchados
Eleitos pela plebe lusitana
Que agora se encontram instalados
Fazendo aquilo que lhes dá na gana
Nos seus poleiros bem engalanados,
Mais do que permite a decência humana,
Olvidam-se de quanto proclamaram
Em campanhas com que nos enganaram!

II

E também as jogadas habilidosas
Daqueles tais que foram dilatando
Contas bancárias ignominiosas,
Do Minho ao Algarve tudo devastando,
Guardam para si as coisas valiosas.
Desprezam quem de fome vai chorando!
Gritando levarei, se tiver arte,
Esta falta de vergonha a toda a parte!

III

Falem da crise grega todo o ano!
E das aflições que à Europa deram;
Calem-se aqueles que por engano.
Votaram no refugo que elegeram!
Que a mim mete-me nojo o peito ufano
De crápulas que só enriqueceram
Com a prática de trafulhice tanta
Que andarem à solta só me espanta.

IV

E vós, ninfas do Douro onde eu nado
Por quem sempre senti carinho ardente
Não me deixeis agora abandonado
E concedei engenho à minha mente,
De modo a que possa, convosco ao lado,
Desmascarar de forma eloquente
Aqueles que já têm no seu gene
A besta horrível do poder perene!

(Autor anónimo)


Apostilha: Já era difícil a um CFB incumpridor e contumaz encontrar um Patrocinador de gabarito, qualquer empresa de média ou grande dimensão dispensa publicidade negra. Com a anunciada farronca do processo à Vitória Seguros, diga-se desde já adeus à banca, seguros e adjacentes nos próximos 20 anos. Refira-se que a seguradora alemã limitou-se a accionar as cláusulas de rescisão previstas contratualmente, mas nós ousamos "dar ordens e prazos" et allez justice...!? Sim! Meter em tribunal os ladrões internos é mais complicado, porque lá se iam pernadas, pernaltas e alguns natas de vinte! Dinásticos e amigos. Aposto dobrado contra singelo em como levaremos raspas num qualquer eventual litígio contra esta Entidade. Aliás, trata-se de publicidade para consumo interno, podendo no limite, o feitiço virar-se contra o feiticeiro, sendo o Belenenses obrigado a pagar avultada indemnização por litigância de má fé, para já não falar dos custos do processo. Para os menos informados ou mais entusiasmados com os milagres dos cremes clerasil, este grupo alemão tem um dos maiores gabinetes jurídicos de todo o mundo, recorrendo se for caso disso e nos países onde tem de litigar: AOS MAIORES CRAQUES LOCAIS NAS MATÉRIAS EM QUESTÃO. Só! Porque dinheiro naquele grupo, abunda, e não me refira à da flácida;
Não é assim que se resolve um desacordo jurídico num contrato que começou como um verdadeiro "gentlemen's agreement". É com diálogo e verdadeiros cavalheiros à mesa, finalizando com um forte aperto de mão entre as partes, após apresentar-se projecto inovador que os motive a acreditarem em nós e na nossa boa fé. Porque os papeis até podem rasgar-se, a palavra entre cavalheiros não é muito vulgar!

La révolution des frites en Belgique

Em Bruxelas, hoje, 3o organizações de estudantes belgas festejam 249 dias sem Governo.

A «Revolução das Batatas Fritas», expressa a impaciência por uma crise política que dura há mais de oito meses. Enquanto isso o país é dirigido por um governo provisório empossado pelo Soberano Alberto desde 26 de Abril pp.

(das agências de informação intyernacionais)


PS 1: Contudo não consta que os jovens deste país auferindo um ordenado médio de 1.500€/Mês estejam a morrer de fome;

PS 2: Também não consta que o desemprego tenha atingido os 11,1% e os alimentos e combustíveis tido o aumento exponencial ocorrido ultimamente nesta república de conas moles;

Deolinda - Parva que Sou, Coliseu do Porto. Assim damos a volta a isto!




Sou da geração sem remuneração
e não me incomoda esta condição.
Que parva que eu sou!
Porque isto está mal e vai continuar,
já é uma sorte eu poder estagiar.
Que parva que eu sou!
E fico a pensar,
que mundo tão parvo
onde para ser escravo é preciso estudar.

Sou da geração 'casinha dos pais',
se já tenho tudo, pra quê querer mais?
Que parva que eu sou
Filhos, maridos, estou sempre a adiar
e ainda me falta o carro pagar
Que parva que eu sou!
E fico a pensar,
que mundo tão parvo
onde para ser escravo é preciso estudar.

Sou da geração 'vou queixar-me pra quê?'
Há alguém bem pior do que eu na TV.
Que parva que eu sou!
Sou da geração 'eu já não posso mais!'
que esta situação dura há tempo demais
E parva não sou!
E fico a pensar,
que mundo tão parvo
onde para ser escravo é preciso estudar

É Judiar Incompetências ... (enquanto podem)


Redução de vencimentos: um texto lúcido do Prof. Luís Menezes Leitão, da Faculdade de Direito de Lisboa

"Fico perfeitamente siderado quando vejo constitucionalistas a dizer que não há qualquer problema constitucional em decretar uma redução de salários na função pública.

Obviamente que o facto de muitos dos visados por essa medida ficarem insolventes e, como se viu na Roménia, até ocorrerem suicídios, é apenas um pormenor sem importância.
De facto, nessa perspectiva a Constituição tudo permite.
É perfeitamente constitucional confiscar sem indemnização os rendimentos das pessoas.

É igualmente constitucional o Estado decretar unilateralmente a extinção das suas obrigações apenas em relação a alguns dos seus credores, escolhendo naturalmente os mais frágeis.
E finalmente é constitucional que as necessidades financeiras do Estado sejam cobertas aumentando os encargos apenas sobre uma categoria de cidadãos. Tudo isto é de uma constitucionalidade cristalina.
Resta acrescentar apenas que provavelmente se estará a falar, não da Constituição Portuguesa, mas da Constituição da Coreia do Norte.

É por isso que neste momento tenho vontade de recordar Marcello Caetano, não apenas o último Presidente do Conselho do Estado Novo, mas também o prestigiado fundador da escola de Direito Público deLisboa.

No seu Manual de Direito Administrativo, II, 1980, p. 759, deixou escrito que uma redução de vencimentos "importaria para o funcionário uma degradação ou baixa de posto que só se concebe como grave sanção penal". Bem pode assim a Constituição de 1976 proclamar no seu preâmbulo que"o Movimento das Forças Armadas [...) derrubou o regime fascista".

Na perspectiva de alguns constitucionalistas, acabou por consagrar um regime constitucional que permite livremente atentar contra os direitos das pessoas de uma forma que repugnaria até ao último Presidente do Estado Novo.
Diz o povo que "atrás de mim virá quem de mim bom fará".
Se no sítio onde estiver, Marcello Caetano pudesse olhar para o estado a que deixaram chegar o regime constitucional que o substituiu, não deixaria de rir a bom rir com a situação.
Perderei a minha utilidade no dia em que abafar a voz da consciência em mim.
Mahatma Gandhi"

PS 1: Para que conste, não trabalho na FP nem tenho ninguém do meu agregado familiar a ela associada;
PS 2: Mas conheço sócios do Belenenses que foram prejudicados por esta prepotente medida;

Rolando, Outra Pérola Esbanjada...

"MERCATO INTER JUVENTUS ESCLUSIVO TIRRI ROLANDO / ROMA - Trova conferma la notizia della presenza di un emissario dell'Inter a Ginevra per assistere all'amichevole Argentina-Portogallo e per seguire da vicino il centrale difensivo del Porto Rolando. "Per dire la verità, c'erano molte altre squadre oltre all'Inter - le parole di Peppino Tirri, agente Fifa che segue per l'Italia il giocatore lusitano, in esclusiva a Calciomercato.it -. Anche Juventus, Manchester United e Liverpool erano presenti. Possibilità che arrivi nel nostro paese? Ci sono, adesso siamo a febbraio, ci lavoreremo da qui a giugno. Io lo spero, anche perché è un giocatore valido che adesso ha conquistato anche la Nazionale".


Segundo esta notícia do Calciomercato, parece que o puto Rolando, agora com 25 anos, foi observado no recente Portugal - Argentina por emissários do Inter, Juventus, Manchester United e Liverpool, com possibilidades deste rumar em Junho para outras bandas a troco de +/- 30M€.

Trata-se certamente de propaganda do seu empresário Pepino Tirri! Que poderíamos esperar dum pepino, ainda por cima estrangeiro, se fosse produção nacional, era certamente mais fiável e saboroso.

Por falar em saboroso, o Belenenses em tempos teve um percentual sobre esta mais que provável valorização do atleta para a estranja, foi seu Autor Fernando Sequeira, odiado pelos olhos rasgados da sadianos que o precederam.

Os tais cérebros do futuro e da notável Comissão de Gestão em que seguiam todos juntos para ninguém perder-se, superiormente comandada pelo sr. João Barbosa e que incorporava o dr. João Almeida, lestos nos imediatos pagamentos com dinheiro deixado em contas certinhas pelo Dr. Jaime Vieira de Freitas, e muito céleres no antecipar de "receitas" sobre proeminentes negócios futuros "alicerçados" na areia.

Pois foram estes dois senhores que esmolaram junto do Sr. Pinto da Costa, aproveitando a transferência de Spínola, onde a troca duns raquiticos rebuçados de limão, outorgaram os milhões que outros amealharão num futuro breve. Veremos que outros!!!!!
Num clube a sério, com Associados atentos, devotados e interventivos, estes capotanços eram impensáveis!

Num clube de tansos, de assessores de assessores, de trambiqueiros e empresários disfarçados, é tudo permitido, abençoado e vai-se repetindo, daí o laço mortal que nos sufoca, para gáudio dos nossos adversários, que nem precisam mexer-se muito. Há sempre lacaios dispostos a efectuarem qualquer trabalhinho, desde que ganhem uns minutinhos nas pantalhas.

Apostila: Foi preciso chegar-se aos quase noventa e dois anos, ter-se um deputado da nação como Presidente do Clube, para voltar a haver fome extrema entre os trabalhadores do Restelo, tratando-se seres humanos sem dignidade, humilhando-os diariamente como se fossem de condição inferior aos astutos senhores da gleba. Lembrar-me eu que Portugal foi dos primeiros signatários a abolir tais práticas, tal como a pena de morte, de que foi o primeiro. Crime que nem durante a vigência do dito Estado Novo, alguém se atrevera a praticar no CFB. E eram fascistas. Mas quando não podiam pagar, falavam com as pessoas e confortavam-nas. Ontem comentava um articulista num jornal diário, a propósito da boca do ministro para os assuntos "mais" lamentáveis: "...180 deputados a "representarem o povo"? É demais! 5 só. E sobram...". Ámen.

Eu Falo das Casas e dos Homens...


Eu falo das casas e dos homens,
dos vivos e dos mortos:
do que passa e não volta nunca mais...
Não me venham dizer que estava materialmente
previsto,
ah, não me venham com teorias!
Eu vejo a desolação e a fome,
as angústias sem nome,
os pavores marcados para sempre nas faces trágica
das vítimas.

E sei que vejo, sei que imagino apenas uma ínfima,
uma insignificante parcela da tragédia.
Eu, se visse, não acreditava.
Se visse, dava em louco ou profeta,
dava em chefe de bandidos, em salteador de estrada,
- mas não acreditava!

Olho os homens, as casas e os bichos.
Olho num pasmo sem limites,
e fico sem palavras,
na dor de serem homens que fizeram tudo isto:
esta pasta ensanguentada a que reduziram a terra inteira,
esta lama de sangue e alma,
de coisa a ser,
e pergunto numa angústia se ainda haverá alguma esperança,
se o ódio sequer servirá para alguma coisa...
Deixai-me chorar - e chorai!
As lágrimas lavarão ao menos a vergonha de estarmos vivos,
de termos sancionado com o nosso silêncio o crime feito
instituição

e enquanto chorarmos talvez julguemos nosso o drama,
por momentos será nosso um pouco do sofrimento alheio,
por um segundo seremos os mortos e os torturados,
os aleijados para toda a vida, os loucos e os encarcerados,
seremos a terra podre de tanto cadáver,
seremos o sangue das árvores,
o ventre doloroso das casas saqueadas,
- sim, por um momento seremos a dor de tudo isto...

Eu não sei porque me caem as lágrimas,
porque tremo e que arrepio corre dentro de mim,
eu que não tenho parentes nem amigos na guerra,
eu que sou estrangeiro diante de tudo isto,
eu que estou na minha casa sossegada,
eu que não tenho guerra à porta,
- eu porque tremo e soluço?
Quem chora em mim, dizei - quem chora em nós?

Tudo aqui vai como um rio farto de conhecer os seus meandros:
as ruas são ruas com gente e automóveis,
não há sereias a gritar pavores irreprimíveis,
e a miséria é a mesma miséria que já havia...
E se tudo é igual aos dias antigos,
apesar da Europa à nossa volta, exangue e mártir,
eu pergunto se não estaremos a sonhar que somos gente,
sem irmãos nem consciência, aqui enterrados vivos,
sem nada senão lágrimas que vêm tarde, e uma noite à volta,
uma noite em que nunca chega o alvor da madrugada...

(Adolfo Casais Monteiro)

Portugal


Ó Portugal, se fosses só três sílabas,
linda vista para o mar,
Minho verde, Algarve de cal,
jerico rapando o espinhaço da terra,
surdo e miudinho,
moinho a braços com um vento
testarudo, mas embolado e, afinal, amigo,
se fosses só o sal, o sol, o sul,
o ladino pardal,
o manso boi coloquial,
a rechinante sardinha,
a desancada varina,
o plumitivo ladrilhado de lindos adjectivos,
a muda queixa amendoada
duns olhos pestanítidos,
se fosses só a cegarrega do estio, dos estilos,
o ferrugento cão asmático das praias,
o grilo engaiolado, a grila no lábio,
o calendário na parede, o emblema na lapela,
ó Portugal, se fosses só três sílabas
de plástico, que era mais barato!

Doceiras de Amarante, barristas de Barcelos,
rendeiras de Viana, toureiros da Colegã,
não há «papo-de-anjo» que seja o meu derriço,
galo que cante a cores na minha prateleira,
alvura arrendada para o meu devaneio,
bandarilha que possa enfeitar-me o cachaço.

Portugal: questão que eu tenho comigo mesmo,
golpe até ao osso, fome sem entretém,
perdigueiro marrado e sem narizes,
sem perdizes,
rocim engraxado,
feira cabisbaixa,
meu remorso,
meu remorso de todos nós...

(Alexandre O’Neill)

Também Há Prendas no Restelo e Ainda Há Fome...

Enquanto autarca aceitarei prendas que possam ser encaminhadas para o Banco Alimentar contra a Fome. Quando tomei posse como presidente da Câmara de Santarém fui confrontado com a quantidade de prendas que chegavam ao meu gabinete. Era a véspera de Natal.

Para um velho polícia, desconfiado e vivido, a hecatombe de presuntos, leitões, garrafas de vinho muito caro, cabazes luxuosos e dezenas de bolo-rei cheirou-me a esturro. Também chegaram coisas menores. E coisas nobres: recebi vários ramos de flores, a única prenda que não consigo recusar.

Decidi que todas as prendas seriam distribuídas por instituições de solidariedade social, com excepção das flores. No segundo Natal a coisa repetiu-se. E então percebi que as prendas se distribuíam por três grupos.

-O primeiro claramente sedutor e manhoso que oferecia um chouriço para nos pedir um porco.

-O segundo, menos provocador, resultava de listas que grandes empresas ligadas a fornecimento de produtos, mesmo sem relação directa com o município, que enviam como se quisessem recordar que existem.

-O terceiro grupo é aquele que decorre dos afectos, sem valor material mas com significado simbólico: flores, pequenos objectos sem valor comercial, lembranças de Natal.

Além de tudo isto, o correio é encharcado com milhares de postais de boas-festas que instituições públicas e privadas enviam numa escala inimaginável.

Acabei com essa tradição. Não existe tempo para apreciar um cartão de boas--festas quando se recebe milhares e se expede milhares.Quanto às restantes prendas, por não conseguir acabar com o hábito, alterei-o. Foi enviada nova carta em que informámos que agradecíamos todas as prendas que enviassem. Porém, pedíamos que fosse em géneros de longa duração para serem ofertados ao Banco Alimentar contra a Fome. Teve um duplo efeito: aumentou a quantidade de dádivas que agora têm um destino merecido. E assim, nos últimos dois Natais recebemos cerca de 8 toneladas de alimentos.

Conto isto a propósito da proposta drástica que o PS quer levar ao Parlamento que considera suborno qualquer oferta feita a funcionário público. Se ao menos lhe pusessem um valor máximo de 20 ou 30 euros, ainda se compreendia e seria razoável. Em vários países do mundo é assim. Aqui não. Quer passar-se do 8 para o 80. O que significa que nada vai mudar.

Por isso, fica já claro que não cumprirei essa lei enquanto funcionário público. Enquanto autarca aceitarei prendas que possam ser encaminhadas para o Banco Alimentar. E jamais devolverei uma flor que me seja oferecida.

(Francisco Moita Flores, Professor Universitário e Presidente da Camara Municipal de Santarém)

The Ribbon Blue...

Alguns dedicam-se obsessivamente aos números e às estatísticas esquecendo que a sociedade é feita de pessoas. Recentemente, ficámos a saber, através do primeiro estudo epidemiológico nacional de Saúde Mental, que Portugal é o país da Europa com a maior prevalência de doenças mentais na população.

No último ano, um em cada cinco portugueses sofreu de uma doença psiquiátrica (23%) e quase metade(43%) já teve uma destas perturbações durante a vida. Interessa-me a saúde mental dos portugueses porque assisto com impotência a uma sociedade perturbada e doente em que violência, urdida nos jogos e na televisão, faz parte da ração diária das crianças e adolescentes.

Neste redil de insanidade, vejo jovens infantilizados incapazes de construírem um projecto de vida, escravos dos seus insaciáveis desejos e adulados por pais que satisfazem todos os seus caprichos, expiando uma culpa muitas vezes imaginária. Na escola, estes jovens adquiriram um estatuto de semideus, pois todos terão de fazer um esforço sobrenatural para lhes imprimirem a vontade de adquirir conhecimentos, ainda que estes não o desejem. É naturalque assim seja, dado que a actual sociedade os inebria de direitos, criando-lhes a ilusão absurda de que podem ser mestres de si próprios.

Interessa-me a saúde mental dos portugueses porque, nos últimos quinze anos, nas empresas, os directores insanos consideram que a presença prolongada no trabalho é sinónimo de maior compromisso e produtividade.

Tenho presenciado muitos casos de homens e mulheres que, humilhados pela falta de trabalho, se sentem rendidos e impotentes perante a maldição da pobreza. Observo as suas mãos, calejadas pelo trabalho manual, tornadas inúteis, segurando um papel encardido da Segurança Social.

Interessa-me a saúde mental dos portugueses porque é difícil aceitar que alguém sobreviva dignamente com pouco mais de 600 euros por mês, enquanto outros, sem mérito e trabalho, se dedicam impunemente à actividade da pilhagem do erário público.

Fito com assombro e complacência os olhos de revolta daqueles que estão cansados de escutar repetidamente que é necessário fazer mais sacrifícios quando já há muito foram dizimados pela praga da miséria.

Finalmente, interessa-me a saúde mental de alguns portugueses com responsabilidades governativas porque se dedicam obsessivamente aos números e às estatísticas esquecendo que a sociedade é feita depessoas.

Entretanto, com a sua displicência e inépcia, construíram um mecanismo oleado que vai inexoravelmente triturando as mentes sãs de um povo, criando condições sociais que favorecem uma decadência neuronal colectiva, multiplicando, deste modo, as doenças mentais. E hesito em prescrever antidepressivos e ansiolíticos a quem tem oestômago vazio e a cabeça cheia de promessas de uma justiça que se há-de concretizar, e luto contra o demónio do desespero, mas sinto uma inquietação culposa diante destes rostos que me visitam diariamente.

Pedro Afonso, Médico psiquiatra
(Transcrição parcial do artigo publicado noPúblico, 2010-06-21)